Samba sem conservantes nem aditivos. Curtido em madeira nobre, temperado com o perfume sublime do couro. Ao sorvermos este Samba de gole em gole, incensamos nosso espírito que vagueia rumo à felicidade suprema. Bebam, e sejam eternos.



segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Pandeiro imortal do Jackson

Por Aloisio Nogueira Alves

… falar de Jackson é tão fácil que se torna dificil demais para mim.
Sou ligado à vida e à obra do Jackson do Pandeiro pela devoção ao artista, e também porque minha data de nascimento é justamente o dia em que o ritmista imortal pendurou seu pandeiro.
Neste 31 de agosto de 2010, Jose Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro, completaria 91 anos.
De origem simples, filho de Flora Mourão, cantora de coco nas feiras livres do sertão paraibano. Queria tocar sanfona, mas era um instrumento muito caro. Foi então que sua mãe lhe deu um pandeiro. Logo passou a superar os melhores pandeiristas da época.
Mudou-se para Recife, despertando a atenção do diretor da Rádio Jornal do Comercio de Recife. Formou dupla com aquele que seria seu maior compositor, Rosil Cavalcante. Este de cor branca e o Jackson de cor escura – daí o nome da dupla Cafe com Leite. Foi quando Rosil Cavalcante compôs a primeira musica gravada por Jackson, o famoso coco Sebastiana – um sucesso estrondoso que ainda hoje ecoa por todos os nossos Brasis.
Como era fã dos atores de faroeste, José Gomes Filho adotou o pseudonimo de Jack. Nas brincadeiras de mocinho e bandido, gostava de ser chamado Jack Perry. Comprou chapelão de palha, revólver de madeira. Quando cresceu e teve de ajudar a mãe, deixou a brincadeira mas conservou o apelido – Jack do Pandeiro. Mas, por orientação do diretor da emissora, optou por Jackson - era mais sonoro.
Interpretava com muita facilidade todos os tipos de ritmos.
Chegou inclusive a gravar o samba Pisei num Despacho, de Geraldo Pereria em parceria com Elpidio Viana (Eldorado GRA. 61228414). O notável intérprete da música nordestina, fora de suas caracteristicas, entrosava-se perfeitamente com a obra e o espírito de Geraldo Pereira.
Ressaltava-se alí a grande diferença de Jackson do Pandeiro com os demais artistas, a sua famosa divisão das sílabas.
Jackson foi campeão de muitos dos velhos Carnavais. Em 1955 “arrebentou” com Vou Gargalhar, de Edgar Ferreira (Copacabana - CLP2004).
Sua consagração como o primeiro ídolo de massas do Brasil, não apagou seu amor pela gente humilde onde ele tinha suas raízes. Volta e meia seus músicos davam pela sua falta. Iam encontrá-lo em alguma bodega bem simplória, cantando de graça.
Sua empatia com o público era fenomenal. O paraibano franzino se agigantava no palco. Certa feita, num show no Atêrro do Flamengo, diante de uma multidão, disse com naturalidade sertaneja: “Isto aqui tá parecendo Limoeiro!”, referindo-se à cidade do agreste nordestino, louvada no ano 1953 por Edgar Ferreira com Forró em Limoeiro.

Coisas do destino
Jackson adorava fazer shows em Brasilia. É dele a primeira música em homenagem à então recém-fundada capital federal. Em parceria com João do Vale fez o baião-de-viola Rojão de Brasilia. Nesta composição, Jackson gravou com poucas percussões, e acompnhando-se ao violão, provando que, além de ritmista insuperável, era também um hábil violonista.
Por infeliz coincidência, foi exatamente em Brasília que Jackson do Pandeiro desmaiou no aeroporto. Ja tinha sofrido um infarte dias antes. O sanfoneiro Severo, que o acompanhava há anos, havia advertido Jackson que fosse cuidar da saúde. Mas o Rei do Ritmo insistiu em cumprir todos os compromissos da agenda.
Foi numa triste tarde de domingo, em 10 de julho de 1982, por volta das 17h15 que Jackson deu seu último suspiro no Hospital de Base de Brasilia.
No dia seguinte foi sepultado no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Seu corpo ficou lá, mas sua alma voou nas asas do vento para encontrar-se com Manezinho Araújo, Gordurinha, Ary Lobo, Rosil Cavalcante, Edgar Ferreira, Venâncio e Corumba, João do Vale e com o rei Luiz Gonzaga, para a grande festa celestial.
Levou consigo para a Eternidade o coco, o chote, o baião, as marchas carnavalescas, o frevo, o rojão, os pontos de macumba, a alegria.
O brasileiro Jackson do Pandeiro estará para sempre no coração das pessoas simples do povo. Neste 31 de agosto vamos cantá-lo e louvá-lo nas mesas dos botequins, batucar seus sucessos nos balcões.
Jackson imortal do Pandeiro está conservado nos tonéis sagrados do Samba de Alambique.


Alguns “causos” do Jackson

Por David da Silva

Certa feita em Campina Grande, já ganhando uns cobres com música, Jackson foi escalado para acompanhar o pianista Jaime. Jackson nunca tinha visto um piano de frente. Quando moleque em Alagoa Grande, passando pela calçada da casa do juiz local, ele ouvia a filha do magistrado aprendendo piano. Mas não via nada – só o som das notas tecladas. Não fazia a menor idéia de como seria o instrumento.
Em Campina Grande, ao ver “o bicho” cara a cara, feito bode arredio Jackson refugou:
Num tá vendo, essa goteira aí – tongo, tingo, tingo... Ah, num vai dar!
Foi preciso o pianista dar antes uma demonstração das possibilidades ritmicas do instrumento para Jackson ceder: “Ahhhh, então a jogada é diferente!”

Jackson tinha plena noção da sua genialidade:
- Eu não queria ser quinto ou quarto baterista. Por causa do suingue, um fox meio ligeiro que tinha antigamente, eu deixei de tocar bateria.Eu queria ser um baterista que todo mundo se admirasse. Eu toda vida gostei de ser assim. Não gostava de ser o último lugar. Eu gostava de ser de segundo pra primeiro, e tal. Então era um baterista que só gostava de tocar a nossa música. Então abandonei e fui treinar um pouquinho de pandeiro. E sempre cantando. Cantando samba, cantando marcha de arrasta-pé, cantando coco, essa coisa toda.

Poucas horas antes de morrer, Jackson ainda mantinha seu jeito matreiro, bem humorado. Quando a nutricionista Eneida lhe leva a comida inssosa do Hospital de Base, o diabético Jackson pergunta: “Não tem aí uma feijoadazinha e um açúcar pra botar no meu suco?”

Cavalho velho, capim novo, diz a inteligência popular. Jackson seguiu o conselho à risca – e foi sua desgraça. Por causa dessa presepada, Almira rompeu o casamento com Jackson.
Em 1966 fazia dois anos que Jackson e Almira Castilho haviam-se casado no cartório (já viviam juntos há 10 anos). Moravam num belo apartamento da rua Cândido Mendes, no bairro da Glória, no Rio. Agenda de shows sempre cheia, dinheiro à vontade. Mas...
Na cama as coisas não iam tão bem para o casal. Jackson, com 50 anos incompletos, sentia seu apetite sexual ser corroído pelo diabetes, e pela juventude gasta em muitos puteiros e cachaçadas.
Pensou que o problema poderia ser Almira. Tantos anos seguidos com a mesma mulher...
Na casa deles vivia uma afilhada do músico – Clenice, 19 anos, morena, baixinha, bonitinha... Do jeito que Jackson aprecia.
Numa bela manhã, Almira, que dormia até tarde, sai mais cedo da cama e vai até a cozinha. Encontra seu velho Jackson na maior agarração com a afilhadinha fogosa. Tremendo fuzuê.
Pra piorar, Almira descobre que a danada da Cleonice colocava sonífero no seu lanche noturno. Com isto Almira ferrava no sono ampliando o bem-bom matinal de Jackson.


O mestre na opinião de outros mestres

João Bosco:
"Sempre fui fascinado por ele. A gente tinha um projeto de fazer vários shows juntos pelo País, mas acabou não dando certo por causa da falta de grana. Tive a oportunidade de dizer ao Jackson o quanto admirava o seu trabalho. Fiz uma música em homenagem a ele Acho que a música dele tem de ser mais divulgada, principalmente para os músicos mais jovens."

Aldir Blanc:
"Se algum músico pode ser chamado de seminal no Brasil é Jackson do Pandeiro. Ele foi o ponto de partida e uma referência para muitos músicos que estão hoje aí. Os meus dois parceiros, Guinga e João Bosco, são um exemplo disso. Eles foram influenciados diretamente pelo trabalho de Jackson, que, além de ótimo músico, era um extraordinário letrista."
Observação: Aldir Blanc fez letra para música de Guinga intitulada Influência do Jackson, gravada por Leila Pinheiro (disco Na Ponta da Língua, 1998). Leia a letra
aqui

Guinga:
"É impossível um compositor que ame a música brasileira não ter o trabalho de Jackson como referência.”

Tom Zé:
"No Nordeste, os três principais alimentos são a farinha, a carne-seca e o ritmo, que é um verdadeiro deus e Jackson o nosso sacerdote.”
Estátua de bronze de Jackson do Pandeiro em Campina Grande, na Paraíba.

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